Sobre a CASA

O jornal Gazeta das Caldas desafiou-nos a escrever um artigo sobre a casa contemporânea… E sustentável! O resultado foi este:

Sobre a CASA

Há muito que a casa deixou de ser apenas o abrigo que serve de protecção à agressividade do mundo exterior, por muito que ainda hoje possa ser essa a sua principal função. A casa é o porto de abrigo de cada um, é o mais natural espaço de intimidade, é pouco ou muito do que cada um é, mas é muito do que cada um possa querer parecer que é. É o que queremos mostrar, mas também o que queremos esconder…

A casa é tudo isto, e tudo isto é, antes de muitas outras coisas que também é, a complexidade da condição humana de ser.

Só depois disto, do fim a que se destina ou do que dela cada um espera, a casa ganha a sua dimensão edificada incorporando então, desejavelmente da forma mais harmoniosa possível, um conjunto muito vasto de recursos – financeiros, naturais e sociais.

A arquitectura é a arte onde convergem estas duas dimensões da casa. E o arquitecto quem dispõe dos recursos técnicos para a sua concepção. Nessa medida o arquitecto é psicólogo, é sociólogo, é economista, é físico, é químico ou biólogo…Tem de perceber e avaliar exactamente as expectativas dos utilizadores. Tem de gerir essas expectativas, de as racionalizar e adaptar, sabendo que é bem alto o preço da frustração e muito ténue a linha que separa o sonho do pesadelo. Tem de olhar para a história e para a geografia. Para o ambiente geofísico, mas também para o ambiente social e económico…

Construir uma casa é uma experiência apaixonante, cheia de desafios e de grande responsabilidade. O primeiro desafio está exactamente na escolha deste parceiro decisivo que é o arquitecto. O projecto de arquitectura representa uma ínfima parte do custo da construção, cujo âmbito ultrapassa largamente. Um bom projecto paga-se a si próprio logo que define a medida certa da casa, sem desperdício de áreas. As áreas desperdiçadas têm o mesmo custo de construção, e depois de manutenção, das outras. Acrescentam por isso custos, designadamente energéticos, mas também fiscais – os impostos são calculados em função da área, mesmo das que não têm qualquer utilidade.

Vai muito para além da construção, como vai muito para além do custo da construção. É o projecto que quando optimiza as condições de conforto e de funcionalidade acrescenta valor à construção. Sem ele o valor da construção será sempre inferior ao do custo dos factores de produção que incorporou. Porque a construção, se não optimiza as diferentes condições que lhe dão sustentabilidade, soma custos – e não valor – aos seus custos!

A casa sustentável – um conceito novo que procura dar resposta a exigências ecológicas e ambientais mas também à nova ordem económica vigente – concentra hoje aquilo que de há muito são as preocupações da arquitectura. Trata-se também de olhar para a casa como um equipamento tecnológico vocacionado para produzir conforto, segurança e outras funcionalidades a custos baixos, racionalizados.

Neste vasto conceito começam por caber os materiais de construção – logo à luz da própria construção, mas também da futura demolição – pela natureza dos seus componentes ou pelos seus processos de fabrico e de distribuição, na dupla perspectiva económica e ecológica. Cabem os princípios da arquitectura bioclimática, determinantes no equilíbrio térmico passivo da habitação e, consequentemente, na sua eficiência energética. Cabem os consumos habitacionais, largamente concentrados nos consumos de energia e água, privilegiando estratégias de poupança – e mesmo de produção – de energia e de reutilização de águas. E em particular a climatização, um dos principais pesos no orçamento familiar da habitação, que na casa sustentável depende mais, muito mais, do projecto de arquitectura e dos materiais de isolamento térmico utilizados que propriamente de sistemas artificiais de climatização.

Ricardo Nogueira de Sousa Lopes, Março de 2014