Torres “verdes” – A sustentabilidade insustentável

 

É sempre com alguma perplexidade que observo a forma entusiasta com que são recebidas algumas propostas de torres que, sob a enganadora capa da “sustentabilidade ambiental” e assentes numa série de formalismos despropositados, são encaradas como projectos de referência que nos indicam o caminho do futuro. Isto apesar de replicarem uma série de tipologias modernistas cujas contradições e desajustes face à natureza humana há muito foram colocadas a nu pelo decorrer da história. Aliás, ainda hoje estão na base de alguns dos mais intrincados problemas que afectam as nossas cidades e, consequentemente, a nossa sociedade.

De uma vez por todas é necessário perceber que o modelo de construção em altura não resulta quando aplicado à habitação. Cinco ou seis pisos já é muito, mais do que oito é de mais! Entre outros males, os moradores ficam dependentes do uso do elevador, os espaços comuns tendem a ser menos zelados e perde-se o contacto funcional, visual e acústico entre as habitações e a rua. Como resultado de tudo isto, é notório que os moradores, sobretudo os mais idosos, tendem a refugiar-se no seu fogo, utilizando menos os espaços públicos. Há também estudos que identificam problemas do foro neurológico em indivíduos que moram em pisos elevados.

Ao contrário do que alguns arquitectos modernistas acreditavam, as pessoas não são máquinas que preferem deslocar-se solitariamente de automóvel, passando de edifício para edifício sem nunca terem de pisar a rua. O Homem gosta de sentir o sol a incidir-lhe na cara. Gosta de observar os outros, de caminhar por entre desconhecidos e de ocasionalmente encontrar velhos amigos. Gosta de perder 5 minutos a tomar café numa esplanada.

É necessário encarar o espaço público como matéria alvo de composição e não como o resultado do que sobra por entre edifícios egocêntricos e desconexos. É necessário reposicioná-lo no topo da pirâmide, fazer dele um local de encontro e partilha. A sustentabilidade das cidades passa por criar condições para que os espaços públicos sejam utilizados e observáveis a partir dos fogos, concorrendo para uma vigilância passiva capaz de impedir o surgimento de sentimentos de insegurança.

É insustentável termos cidades repletas de torres onde indivíduos pálidos se refugiam silenciosos diante dos seus computadores, enquanto os espaços públicos repousam inúteis e vazios.

Ricardo Nogueira de Sousa Lopes, Outubro de 2011

Imagem – Shenzhen Logistic City, JDS