Reposicionamento do Homem relativamente à Natureza e a reformulação das abordagens arquitectónicas

Ao longo do século passado o Homem deixou-se fascinar pela máquina. Desenvolveram-se a estandardização e a produção em série que tão determinantes foram na determinação dos contornos da sociedade contemporânea. A viragem para este milénio fica marcada por uma nova vaga de avanços tecnológicos que reduziram tempos e distâncias, não só métricas, mas de toda a ordem. Ironicamente, a velocidade galopante a que tudo isto ocorreu roubou tempo de reflexão sobre o essencial. O Homem deixou-se hipnotizar pelos seus avanços, esqueceu-se de que eram meios e não fins e, quando lhe sobrou tempo, gastou-o a dar-lhe usos cada vez mais inúteis.

A arrogância e a ganância conduziram ao desprezo pelo equilíbrio ecológico e às vezes até pela própria natureza humana. Construíram-se cidades insustentáveis, agressivas e desumanizadas, repletas de edifícios repetitivos, descontextualizados e sem outra essência que não a da especulação imobiliária.

Este é um momento de viragem. Acredito que está a sedimentar-se na “consciência global” uma nova percepção relativamente às questões climáticas e ambientais. Uma realidade capaz de revolucionar a ordem dos factores, reposicionando o Homem abaixo na Natureza, porque só assim se garante a sustentabilidade de tudo, incluindo do próprio Homem.

Esta transformação reflecte-se já significativamente nos sectores da arquitectura e da construção. Apesar de toda a demagogia e aproveitamento falacioso do conceito de “sustentabilidade”, ao abrigo de prefixos “eco” ou “green” que encobrem os mesmos erros do passado. Nas abordagens mais sérias observo transformações importantes sobretudo a dois níveis – na tecnologia que os edifícios deverão suportar e nas novas linguagens arquitectónicas em coerência com uma consciência “ecológica”.

Desde sempre que a evolução da tecnologia construtiva influencia decisivamente a linguagem arquitectónica. Este é um momento de mudança em que surgem novas práticas, novas estratégias e novas soluções. Espera-se que os arquitectos cozinhem essas novidades da forma mais criativa possível, sem se refugiarem no conforto das formas do passado.

Alguns dos movimentos arquitectónicos que nasceram no fim do século anterior, como oregionalismo ou o minimalismo, surgem já como reacção à arrogância do Homem relativamente à Natureza. O regionalismo contextualiza o objecto arquitectónico, enraizando-o no seu lugar, de tal forma que este deixaria de fazer sentido se reposicionado noutro sítio. O minimalismoliberta a arquitectura de construções culturais, do símbolo ou do cânone, no fundo daquilo que o Homem inventa e impõe. Centra-se na essência das coisas, na matéria, nas texturas, nos cheiros e em tudo aquilo que os sentidos podem absorver.

Ricardo Nogueira de Sousa Lopes, Fevereiro de 2012

Imagem – Storm Thorgerson