Casas modulares e pré-fabricadas

Uma nova vaga de casas pré-fabricadas está a invadir o mercado. Comprar casa como se compra um móvel no IKEA (que efectivamente as vende, embora não as tenha ainda introduzido no nosso país – www.boklok.com) parece ser um conceito atraente.

Do conceito de “casa pré-fabricada” brotou o de “casa modular”, que normalmente se associa a uma imagem inovadora, insistindo numa ideia de adaptabilidade e versatilidade que se torna cativante aos olhos do consumidor.

O preço e a velocidade de execução são as maiores vantagens das casas modulares em madeira. Um método construtivo menos nocivo do ambiente, assente no uso de materiais ecológicos, e o proporcionar de uma habitabilidade mais saudável (factor ainda difícil de aferir) são também pontos fortes neste tipo de solução. Uma outra questão que contribui para o entusiasmo inicial dos potenciais compradores é o da ilusão de que estas casas podem ser implantadas em áreas não edificáveis (por exemplo em REN ou RAN). Importa esclarecer que o processo de legalização destas construções é o mesmo do que para quaisquer outras.

Não nos podemos esquecer da forma como o clima do nosso país é altamente agressivo relativamente às construções em madeira. Isto traduz-se numa menor durabilidade desse tipo de solução, associada também a brutais encargos de manutenção. Se no imediato o preço de uma construção modular em madeira se poderá revelar atractivo (o que muitas vezes nem se verifica), a médio e a longo prazo revelar-se-á um péssimo investimento. E já que falamos em euros, não nos poderemos esquecer da dificuldade em obter financiamento para este tipo de edificação.

As casas modulares com soluções alternativas à madeira poderão oferecer maior durabilidade, embora dificilmente sejam tão ecológicas. Não disponho de dados concretos relativamente a essa questão, mas a verdade é que não raras vezes ouvimos as queixas dos consumidores deste tipo de casas relativamente ao rápido aparecimento de patologias construtivas.

Na minha perspectiva, o que de mais errado há no conceito de “casa modular” é o de que os seus princípios estão em profunda contradição com os da Bio Arquitectura (e com os da Boatambém!). Cada lugar tem as suas especificidades, falamos da sua insolação, orografia, ventos, vistas, vegetação, vias, dimensões, etc. Cada indivíduo tem uma personalidade irrepetível, modos de vida próprios e desejos únicos. Por mais flexíveis que se anunciem os módulos pré-fabricados, serão sempre rígidos e ineficazes relativamente à maior parte dos lugares e dos programas habitacionais.

Por tudo isto, e caso permaneça tal como hoje se apresenta, não prevejo um grande futuro para a indústria das casas modulares, sobretudo as de madeira. Permanecerá associada a cabanas de férias e a equipamentos temporários ou implantados em locais sensíveis.

A pré-fabricação sustentada na estandardização e no módulo poderá realizar-se com aparente eficácia em micro-casas ou à escala de um determinado bairro ou empreendimento turístico. Mas não consigo conceber que as pessoas passem a escolher as suas casas por catálogo, apesar de estes neste momento abundarem na internet. Estou cada vez mais convicto de que o caminho certo seja o da procura de soluções construtivas ecológicas, inteligentes e versáteis, que produzam edificações exclusivas e irrepetíveis… Estas até poderão ser pré-fabricadas, mas sempre com um projecto específico!

Ricardo Nogueira de Sousa Lopes, Fevereiro de 2012

Imagem – in www.boklok.com