A missão da nova geração de arquitectos

Após o 25 de Abril de 1974 o país foi construído à pressa. Estava tudo por fazer, dizia-se! Alguns – poucos – perceberam que havia que controlar e ordenar essa dinâmica. Alguns esforços foram feitos nesse sentido, mas não os suficientes para evitar a destruição de muitas paisagens naturais e a generalizada descaracterização das cidades.

A visão estratégica que foi prevalecendo foi a do lucro fácil e imediato. Os “espertos” e os “desenrascados” enriqueceram à custa da destruição de grande parte dos recursos e do património do nosso país. Foi também com esse espírito que recebemos o impulso proporcionado pelos dinheiros da comunidade europeia, numa altura em que os “jogos de influências” imperavam e em que os interesses individuais cada vez mais se sobrepunham aos colectivos.

Interessa-me mais o que está para a frente do que todo o mal que ficou para trás. Aliás, encontro nos erros do passado um enorme objecto de trabalho para as novas gerações de arquitectos, requalificando e intervindo no sentido de melhor aproveitar o potencial do nosso território e da nossa cultura. Apesar de muitos estarem a fugir do país, ainda temos técnicos qualificados capazes de dar conta do recado.

Apesar de termos em mãos uma colossal factura a pagar pelos erros do passado, sinto que o verdadeiro problema do nosso país está nos interesses instalados, que procurarão obstaculizar as mudanças que neste momento se impõem. Em vez da aplicação do conhecimento individual ao serviço do bem colectivo, assistimos à utilização do poder para o interesse individual. Muitos dos profissionais são escolhidos pela sua influência e não pela sua competência. Os políticos (e não só) servem-se das instituições públicas em vez de as servirem. O meritocracia continua sem lugar!

Sim, é verdade! Também temos o problema da “crise”. E se houvesse dinheiro? Quanto dele seria bem empregue? Quanto dele iria parar aos mesmos bolsos? Que garantias temos de que seria aplicado com inteligência, racionalidade e ética?

Resumindo, as gerações anteriores viveram acima das suas possibilidades, fizeram fortuna construindo a insustentabilidade do nosso país. À geração que neste momento arregaça as mangas exige-se que, finalmente, faça as coisas bem feitas, assegurando a sustentabilidade do nosso futuro. Tudo isto sem dinheiro e sem poder tocar nos poderes instituídos, que vão absorvendo o pouco que ainda há e resistindo à mudança. É uma missão para super-heróis!

Ricardo Nogueira de Sousa Lopes, Dezembro de 2011

Imagem – Periferia de Lisboa, Hélder Coelho