A construção em altura e a sustentabilidade social

Surpreendentemente, o último post que escrevi, sobre “torres verdes”, revelou-se bastante polémico. Recebi várias mensagens de reacção relativamente ao seu conteúdo, umas concordantes, outras discordantes.

Devido a algumas das questões que me foram colocadas, sinto-me obrigado a esclarecer melhor a minha posição sobre o tema anterior. Aquilo que pretendia expressar era a minha descrença relativamente à eleição da torre habitacional como modelo paradigmático da arquitectura e do urbanismo sustentável, não raras vezes formalizando a imagem das cidades do futuro que nos é apresentada. A minha posição assenta essencialmente na contradição entre tal solução e a natureza humana, algo que se poderá materializar em inúmeros efeitos indesejáveis, como por exemplo a desvalorização do espaço público. Gostaria também de sublinhar que deve existir uma leitura diferente relativamente à construção de torres com outros usos que não o habitacional.

Nesta matéria é muito perigoso falar em modelos certos ou errados, porque o próprio conceito de arquitectura se centra no respeito pelas diferenças e pelas especificidades de cada situação. Há de facto casos em que o modelo de construção em altura funciona com aparente sucesso. Falo de alguns exemplos asiáticos, como Hong Kong, ou de determinados quarteirões de cidades extremamente desenvolvidas, como Nova Iorque.

A vertente cultural pode ajudar a justificar uma melhor aceitação do modelo em altura. Mas é minha convicção de que, nesta matéria, o factor decisivo é o da caracterização económica dos residentes. A manutenção e vigilância de estruturas, espaços e equipamentos colectivos das torres obriga a elevados encargos de condomínio. Ou seja, deverão estar associadas a um pequeno extracto de população economicamente privilegiado, capaz de as sustentar. É por isso que me parece tratar-se de um modelo essencialmente direccionado para elites e não para massas. Para massas só mesmo em pólos extremamente desenvolvidos onde circule muito dinheiro.

Quando associamos construção em altura e populações economicamente desfavorecidas o resultado é catastrófico, gerando-se frequentemente numa espiral de degradação que muitas das vezes só termina com a demolição dos próprios edifícios. O Bairro do Aleixo, no Porto, é um exemplo disso mesmo, encontrando-se precisamente neste momento em fase de demolição. Também em cidades como Paris esta é uma dinâmica em curso.

Esta matéria introduz ainda outra questão pertinente, motivada pelo facto de termos um modelo que apenas se adequa a um determinado extracto da população: Deve a arquitectura (e o urbanismo) funcionar como elemento potenciador da segregação entre classes ou, pelo contrário, promover a miscelanização social e a cidade contínua?

Em abstracto, a densificação da cidade faz sentido do ponto de vista económico. Permite diminuir a sua extensão, reduzindo distâncias e poupando nas infraestruturas (bem como nos serviços a si associados). No entanto falamos de casas de pessoas e não de máquinas, o que em muito complica a questão, introduzindo um sem-número de variáveis altamente complexas e difíceis de aferir. Qual o prejuízo inerente à produção de cidades desumanizadas? Quanto lucramos por construir cidades que valorizem a qualidade de vida das populações? A sustentabilidade energética é fácil de aferir, mas os arquitectos não se poderão esquecer de uma outra sustentabilidade, menos na moda mas tão ou mais importante do que qualquer outra – a sustentabilidade social.

Ricardo Nogueira de Sousa Lopes, Dezembro de 2011

Imagem – Hong Kong, Michael Wolf